"POLÍTICA? TÔ FORA!!

"O jornalismo político esquece para quem escreve e perde o foco na hora de transmitir conteúdo"

O ajudante de pedreiro, João da Silva, chega em casa depois de um cansativo dia de trabalho. Como de costume, liga a televisão e assiste passivamente as notícias do dia. São relatos sobre atentados terroristas, catástrofes naturais, esportes, etc. Em seguida, o apresentador do telejornal trás as notícias de Brasília. Em poucos minutos despeja uma enxurrada de informações sobre os principais acontecimentos do Senado e os bate-bocas entre candidatos a presidência. É exatamente nessa hora que Silva se levanta e dirigi-se a cozinha para buscar sua cerveja de todo dia. Afinal, para que se envolver com isso se os políticos são todos desonestos, se a política não faz a menor diferença em sua vida e se ele nada entende da chuva de termos técnicos utilizados?

Essa interpretação da rotina do jornalismo político, representada pelo meu personagem fictício, é mais real do que se imagina. A filósofa Marilena Chauí, em seu livro, Convite à Filosofia, explica que a sociedade, de forma geral, percebe a política como algo distante, perverso e perigoso.

Parece que a cultura do não-à-política impera em nosso meio. Mas por que será que isso acontece?

A filósofa afirma que os jornais descrevem, todos os dias, acontecimentos políticos que reforçam uma percepção pejorativa da política. De tão desgostosos com o tema, os cidadãos recusam-se a participar de tudo que se relacione com a mesma.

Barreiras

Motivos para a insatisfação da sociedade são inúmeros. O escritor Luis Eduardo Matta, em seu artigo intitulado “Jornalismo político ontem e hoje”, reflete que a opinião pública tornou-se menos romântica e mais pragmática. A política no Brasil caiu na desgraça e até o ato de votar é sinônimo de perda de tempo e opressão. Em entrevista ao Canal, ele expõe dois argumentos principais para a separação que existe entre o jornalismo político e população: o teor tendencioso e retrógrado que alguns jornalistas têm ao estudar os fatos, e o distanciamento gradativo entre o noticiário político e o cotidiano das pessoas.

No entanto, o grande vilão, segundo Matta, é o Estado. Se os brasileiros são ignorantes quanto à política é porque o governo não se preocupou em investir em excelência no sistema educacional. “Grande parte da população, e esse é um dos nossos dramas, não lê jornal, não se interessa, não sabe o que está se passando. Por melhor que seja o noticiário político essa massa não vai prestar atenção se não tiver uma base cultural que lhes permita analisar e refletir”, adverte.

O escritor alega que, enquanto a sociedade enxergar os políticos como “superiores” e acima de todos, quando, na verdade, eles deveriam ser os funcionários do povo eleitos para nos representar; essa cultura de desinteresse pelo sistema vai continuar.

O papel da mídia

Como forma de combater essa rejeição, o editor online da Carta Capital, Celso Marcondes, sustenta que os veículos de comunicação precisam informar da melhor forma possível os acontecimentos. O jornalista cita como exemplo as eleições presidenciais que estão por vir. Para ele, a população precisa conhecer, detalhadamente, cada ponto das propostas dos candidatos e, além disso, precisa conhecer o histórico de cada um. Tudo feito de maneira transparente. No entanto, “se um veículo quer ser parcial e defender um ou outro político, tudo bem, desde que deixem isso bem claro”, cobra. Para Marcondes, omitir informações é pior do que se mostrar claramente parcial. O consultor político Paulo Moura, doutor em Comunicação e mestre em Ciência Política pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), concorda com Marcondes. Ele defende que existe pouca informação interpretada e com credibilidade no noticiário brasileiro sendo que, cada vez mais, a sociedade tem interesse em saber a posição dos veículos em relação à política. Entretanto, se o veículo jornalístico não deixa claro que, no conteúdo que ele produz há opinião, deve-se, então, apenas noticiar o que aconteceu de fato e procurar ser isento sempre.

E é em meio a esse redemoinho de interesses que surgiu outro meio de divulgação que está sendo fortemente utilizado para conectar as pessoas à política: os blogs. Por causa de sua linguagem mais simples e informal, este meio têm atraído leitores. Além disso, o jornalista Paulo Zildene, dono de um blog e um site sobre jornalismo político, afirma que esse meio possibilita o aumento no número de feedbacks por parte dos internautas. “Como a linguagem é mais simples, tenho a minha mensagem compreendida com maior facilidade”, acredita.

Essa crescente popularidade dos blogs voltados para notícias sobre política pode ser facilmente notada a partir das páginas de jornalistas como Ricardo Noblat e Jorge Moreno. Para se ter uma noção, no dia 16 de maio de 2005 Noblat, em apenas um dia, postou 40 textos em seu blog. Distribuídos por esses textos é encontrada a soma de 3.670 comentários feitos por internautas em apenas um dia. Aparentemente, o povo quer, sim, participar.

Não entendi

Os brasileiros querem se envolver, mas, um empecilho que persiste em continuar, gera obstáculos. A linguagem utilizada pela mídia, principalmente na editoria de política, é extremamente técnica, excluindo parte da população que é menos instruída. A editoria tem quase um idioma próprio, o famoso “politiquês”. O jornalista Ricardo Setti, no artigo “Jornalismo político exclui o grande público”, aponta esse como o grande problema do jornalismo que cobre política. Para ele, vários jornalistas recorrem ao jargão para transmitir a ideia de seriedade, de “estar por dentro”, e, com isso, excluem quem mais precisa se envolver: a sociedade.

Esse “dialeto político” transmite uma “aparência de profundidade a um texto que pouco ou nada diz. Serve apenas para enfeitar banalidades”, dispara Matta. Para ele, essa prática só amplia o estranhamento que muitas pessoas têm em relação ao conteúdo de política dos jornais.

Sobre isso, Marcondes faz um alerta: “quem faz uso do politiquês sairá prejudicado”. Para exemplificar, o jornalista aponta o caso do atual presidente brasileiro. Lula consegue falar a língua do povo e com isso saiu ganhando. Os outros políticos, que usam de uma linguagem mais rebuscada e técnica, não transmitem seu ponto de vista com a mesma eficiência.

Toda essa confusão e falta de compreensão seria evitada, de acordo com Setti, se os jornalistas se preocupassem com a simplicidade textual. Em seu material, o jornalista constata que existe dificuldade de os profissionais dessa área assimilarem que eles são facilitadores de informação, e não desempenhar o papel contrário. No artigo, Setti lembra que, no passado, grande parte dos jornalistas chegavam nas redações, recém saídos das faculdades, “tendo como dogma de fé que a simplicidade, num texto, era um defeito; quando, na verdade, ela talvez seja a suprema meta a alcançar”, conceitua.

Matta reforça essa opinião. Ele pondera que, os profissionais que desejam transmitir conteúdo de qualidade a outros, devem ter sempre a preocupação de se fazer compreender. E esta é a principal missão do jornalismo.

Foi tentando fazer da política um assunto compreensível que o repórter da Rede Globo, Júlio Mosquéra, lançou o livro E eu com isso?. Com o objetivo de gerar educação política o repórter explica, de forma clara e com linguagem acessível, como funciona cada uma das subdivisões dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Além disso, contesta o senso comum de que a política no Brasil foi sempre bagunçada.

Questões relevantes

O noticiário, porém, não educa ninguém se relata, apenas, o bate-boca entre deputados ou se apenas se contenta em mostrar o lado supérfluo da política. O professor Ecio Marques, especialista em Comunicação e mestre em Ciência Política pela Universidade de Paris, adverte que a escolha dos temas que serão tratados nos veículos jornalísticos é um dos grandes males da cobertura de política. ”As matérias precisam ter um enfoque melhor. Quanto mais escândalos são divulgados referentes ao governo, maior será o afastamento da população”, critica.

Para Matta, porém, o erro não está só no aspecto que os veículos jornalísticos adotam na cobertura de política. Os próprios profissionais do jornalismo têm aceitado passivamente repercutir bate-bocas e discussões das esferas políticas. “Eu tenho a impressão de que os jornalistas acham muito normal e, em alguns casos, até aceitável a bandalheira em que transformou a política brasileira”, lamenta Matta. Ele constata que a imprensa está visivelmente acomodada diante do jogo político e anda muito condescendente com a liderança e parlamentares.

E, para ele, um dos contribuintes para este cenário é a necessidade que os conglomerados de comunicação têm de manter e conquistar audiência e publicidade. E, mesmo que o conteúdo despenque na qualidade, pelo menos o ibope se mantém. “Às vezes a mídia sacrifica a qualidade e isso é a morte do jornalismo”, sentencia.

Entretanto, para o escritor, a sociedade e a imprensa precisam se “debruçar, de forma pragmática e objetiva, sobre as questões que realmente importam, para abrandar nossos problemas históricos. E a imprensa é parte fundamental desse processo”.

Mas, para que isso ocorra, é preciso, primeiro, sair da zona de conforto que muitos brasileiros se encontram. E, segundo Moura, as transformações tecnológicas da comunicação podem ser um mecanismo que auxilia a sociedade para que essa seja ouvida. Ou, pelo menos, para que parte da população seja ouvida.

Isso porque, já que a maioria da classe média não tem acesso aos veículos de comunicação convencionais, descobriu-se na internet a possibilidade de usá-la para fazer barulho na política brasileira. Exemplo disso são os blogs e, mais recentemente, o Twitter.

O artigo “A ‘webcatarse’ do cidadão desiludido”, de Carlos Castilho, aborda esse fenômeno. No texto, ele assegura que utilizar a internet como um amplificador da voz da população “é algo inédito no país em matéria de campanhas eleitorais e pode provocar muitas dores de cabeça aos políticos, pois eles não estão acostumados ao debate direto com internautas”.

Mas, mais enfático, Marcondes não é tão positivo assim. Ele alerta que há, sim, interesse por parte da classe política em manter a população pouco instruída sobre o tema. O plano de fundo seria a desigualdade social brasileira que acarreta em baixa escolaridade. Segundo ele, os mal-intencionados elegem-se graças à falta de conhecimento das pessoas. “O coronelismo ainda existe e a ignorância ajuda a eleição”, conclui.

É como dizia o pensador e poeta Bertold Brecht: “Que continuemos a nos omitir da política é tudo que os malfeitores da vida pública mais querem”.

Créditos: Kétlin Brito

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