Presidente do Banco Vaticano é investigado por "lavagem de dinheiro"

22.09.2010 - 09:52 Por Sofia Lorena

É "banqueiro de Deus" há menos de um ano e soube ontem que está sendo investigado por suspeitas de envolvimento em "lavagem de dinheiro". Ettore Gotti Tedeschi é o presidente do Instituto para as Obras Religiosas, nome oficial do Banco Vaticano, uma instituição privada com sede da Cidade do Vaticano, fundada em 1942 pelo Papa Pio XII.







Bento XVI escolheu Tedeschi ano passado.






A Procuradoria de Roma congelou 23 milhões de euros nas contas do Banco Vaticano e lançou uma investigação contra o presidente da instituição e um segundo responsável do banco, não divulgado.

Os dois são suspeitos de não terem respeitado uma cláusula de uma legislação anti-lavagem que em 2007 tornou obrigatória a referência dos autores de transações financeiras, tal como o seu objetivo e natureza.

A polícia financeira suspeitou de duas transações recentes, bloqueando-as: numa foram transferidos 20 milhões de euros para o JP Morgan de Frankfurt; na outra, três milhões de euros saíram do Banco Vaticano para uma conta do italiano Banco del Fucino. Os dois responsáveis não são suspeitos de lavagem direta de dinheiro proveniente de atividades ilícitas, mas de omitirem os nomes dos autores destas transações.

Tedeschi não comentou a investigação, mas o Vaticano exprimiu a sua "perplexidade quanto à iniciativa da Procuradoria, tendo em conta que os dados necessários já estão disponíveis junto do serviço competente do Banco da Itália e que operações idênticas acontecem regularmente com outros estabelecimentos de crédito italianos". A Santa Sé, através de um comunicado do seu secretário de Estado, o cardeal Tarcisio Bertone, assegurou ainda a sua "confiança total no presidente e no diretor-geral" do Banco Vaticano, Paolo Cipriani.

Tedeschi chegou ao cargo referido em Itália como "banqueiro de Deus" no fim de Setembro do ano passado. Antes era representante do grupo espanhol Santander na Itália. Católico devoto e conselheiro próximo do atual ministro das Finanças, Giulio Tremonti, ensinou Ética Financeira, a sua especialidade, na Universidade Católica de Milão.

Aos 64 anos, Tedeschi foi chamado para limpar contas e dar moralidade ao Banco Vaticano, após a divulgação de documentos que revelavam a existência de uma rede de contas secretas que tinha funcionado como um banco dentro de um banco durante a operação Mãos Limpas, em 1993, altura em que a instituição se terá transformado numa "lavand
eria de dinheiro para a máfia, para a economia e para a política italiana", escreveu em 2009 o jornal "El País", a propósito do livro "Vaticano SPA". Mãos Limpas foi a investigação judicial que denunciou as ligações entre a máfia e a política e provocou a implosão do sistema partidário italiano.

O mandato do antecessor de Tedeschi só acabava em 2011.

Tedeschi é muito próximo de Bertone e da Opus Dei, uma instituição católica ortodoxa. Nascido em Piacenza (Lombardia) era já há anos colunista do jornal do Vaticano, o Osservatore Romano. No seu livro Dinheiro e Paraíso, a Economia Global e o Mundo Católico, defende "a superioridade de um capitalismo inspirado na moral cristã" face a um capitalismo de índole protestante.

Uma ponte e veneno

O Banco Vaticano gere as contas das ordens religiosas e das associações católicas. Tem um património estimado em 5 mil milhões de euros, funciona sem recibos e os seus clientes só são identificados através de um número.

Entre os muitos escândalos que atravessou ao longo de quase 70 anos de existência, o mais importante aconteceu há 28 anos, quando ficou provado o seu envolvimento na falência fraudulenta do Banco Ambrosiano, de que era o principal acionista. A investigação mostrou que o Ambrosiano reciclava dinheiro da Cosa Nostra, a máfia siciliana, num processo que envolvia a P2, uma loja maçônica iregular e ilegal, que trabalhava para a CIA.

Roberto Calvi, então diretor do Banco Ambrosiano, foi encontrado enforcado na ponte Blackfiars de Londres, em Junho de 1982.

Fonte: Jornal Público 20 - Lisboa - Portugal

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